A mente de Hitler a criança que nunca cresceu e psicopatologia

 

Na abordagem da figura histórica e mais particularmente a de Hitler, muitas questões prévias são preliminarmente obrigatórias.

O porque da criança que nunca cresceu,a psicopatologia e porque não esquecer este tema.

Normalmente os psicólogos entendem que as neuroses,psicoses e psicopatias são transtornos mal resolvidos na e da infância.No fundo a criança permanece distorcida na idade adulta ,que se impõe a esta última.Ela não consegue crescer,como já falara criticamente Kant:”O homem que sente saudades da infância jamais saiu dela”.

Isto significa muitas coisas:infantilismo pura e simples,insegurança,mas também doenças prejudiciais para si e para outros e ocorre por que o modo subjetivo de deixar a egocentria da infância é mal conduzido.

Mas esta situação configura efetivamente uma permanência da infância ou uma sua distorção,que é algo diferente dela e da idade adulta?

Não é a infância que permanece.Objetivamente a criança cresce,deixa de sê-la.Alguns de seus elementos,no entanto,permanecem e são elementos básicos,fundantes,que lhe são essenciais.

A perda que a idade adulta obriga a ter,através primeiro da puberdade,é a plena adequação emocional e pusional da criança com a mãe.Perdendo isto só há um mundo hostil,com o qual inevitavelmente terá que se conviver e aprender a viver.

Em termos de saúde quando mais plenamente vivemos esta “ adequação” inicial,mais aptos estamos para enfrentar o que vem depois.O que vem depois ,independentemente do que havia antes,causa um trauma e a construção da subjetividade se faz enfrentando a necessidade de compreensão e convivência com este trauma,de um lado e de outro o enfrentamento do “ novo” mundo,a “ selva selvaggia” ,onde não há senão inadequação,insuficiência,trauma e repressão.

Para uma pessoa como eu,que não é psicóloga,as questões atinentes ao periodo da criança não podem ser usados porque só um profissional tem condições de analisar criticamente,criteriosamente,o que ocorreu na infância para continuar influindo na formação do indivíduo adulto.

Muito embora Freud afirme em certo passo que as circunstâncias pelas quais um homem se desvia ou se adequa na vida são aleatórias,bem como os fatores endógenos que os produzem,alguns são recorrentes e conhecidos:abuso sexual,condições de miséria,falta de amor por parte dos pais(que se manifesta de diversas maneiras:abandono,violência,descaso com educação,enfim).

Ainda assim,ao se tratar de uma figura histórica ,como a que abordamos agora,só se tivéssemos acesso a alguma análise,teriamos meios de fazer um quadro completo da personalidade da pessoa,para explicar seus atos e escolhas.

Sobram narrativas de pessoas não especializadas,só eventualmente confiáveis.

Muitas vezes ouvimos histórias dando conta de que Hitler foi anti-semita,porque um judeu batia nele quando criança...mas não tem como dar crédito a isto e nem fazer uma conexão.E nem um fato só seria responsável por isto...

E considerando igualmente e possivelmente uma das funções do analista e do historiador e pesquisador em geral a de investigador policial,talvez se se identificasse,no adulto,nas suas atitudes,aquilo que aconteceu antes.Mas é dificil também.

Assim sendo,nós só temos como considerar a narrativa da formação de adulto do personagem escolhido,não só deste agora,mas de todos.

O contexto social e temporal do local de nascimento de Hitler nos permite ver o autoritarismo e distanciamento do pai,bem como a proximidade da mãe.Um complexo de édipo típico que não significa nada em princípio.

Como disse, só analisando as narrativas posteriores,já da infância chegando na puberdade,podemos começar a fazer algumas conexões esclarecedoras.

Fotos antigas,tiradas em seu primário o mostram com uma auto-confiança extrema,mas isso expressa aquilo antecipamos já um pouco,nas linhas acima:de que a criança,que está se tornando adulta,a partir da adolescência, reage à pressão exógena e endógena de forma agressiva,mas de qualquer maneira,por influência externa ou interna é o mundo que constitui a mediação decisiva,porque a criança que está perdendo a sua condição tem que se haver com ele.

O fenômeno psicopático,como psicológico,está no tempo,como o homem e tudo o que existe.A relação com o tempo não é linear,mas sofre interrupções ,abalroamentos ,como é o caso do trauma.

O trauma é um tempo qualificado,no plano subjetivo/psicológico.Ele desencadeia o problema,mas é no tempo que o sofrimento psicológico,se confirma ou se esvai.A predisposição subjetiva se encontra em vários elementos que nós não vamos tratar aqui agora,mas que podeemos listar como tendências sádicas,ressentimento,sofrimento que impulsiona para a destruição.Este último elemento é matriz mais básica do problema psicologico,porque a melhor forma de superar o medo ou ódio da hostilidade do mundo é destrui-lo.

Observe o leitor a pintura abaixo:


Ela é um detalhe desta pintura maior de J.Wright of Derby


que relata uma experiência com um pássaro ,experiência que vai matá-lo.

A criança mais velha vira o rosto,porque já tem consciência do sofrimento do pássaro.A mais nova observa.Será porque não tem esta consciência ou porque tem curiosidade?E esta curiosidade já tem algo de “ anormal”?

Freud afirma que as circunstâncias que tornam a pessoa boa ou má são aleatórias,mas há predisponências.Como nesta imagem ,curiosidade ou propensão da criança para passar por cima do sofrimento firma padrões eventuais para se marcar o inicio de alguma neurose,psicose ou psicopatia.

Haveria na criança algum tipo de desejo quanto ao sofrimento?Ou seria isto aleatório e causaria um trauma que se encorparia durante a vida?Os psicólogos dizem que a criança não pode ser exposta ao sofrimento e a imagens de sofrimento porque não tem capacidade de elaborar e compreendê-lo de modo a diminuir o seu impacto ou mesmo reagir a ele de forma compassiva consciente.Ela não sabe ainda distinguir a realidade da ficção.

A primeira parte deste artigo é sobre o conceito que se emite a respeito de Hitler ,vendo em seu momento adulto uma continuidade da condição de criança.

A sua inadaptabilidade ao mundo adulto e sua agressividade inteiramente destrutiva estão interligados em suas personalidade e caráter deformados.

A permanência da infância não é,no entanto,de per si,base desta deformação:é um seu problema não resolvido.Porque a pergunta é em que medida se considera uma pessoa como adulta?Integrada no meio social?Esta integração se faz muitas vezes aceitando ruídos nesta mesma sociedade.Em certos lugares ter uma atitude racista isola uma pessoa ,mas em outros,sê-lo a integra.

É falacioso este critério de adultez,embora muito comum.Aqui no Brasil aceitar as regras do jogo de corrupção do cotidiano é visto como prova de ser adulto...Eu desenvolverei esta ideia nos próximos artigos.Mas há que fixar esta noção.


A diferença entre Dom Quixote e Hitler

Dito isto acima passemos para o segundo ponto deste artigo:psicopatologia.

A pessoa que passa por estes complexos problemas adquire várias atitudes diante deste mundo hostil(se é que ele é).O aprendizado da pessoa normal,como dissemos,obriga a compreender o mundo paradisíaco do passado e este mundo do presente e do futuro,mas o que a faz ser destrutiva (e /ou auto-destrutiva),fisica ou moralmente,a ponto de aceitar e decidir as piores ações?

O mundo é hostil,no seu inicio,porque ainda não é conhecido,mas o seu conhecimento progressivo deveria trazer algo construtivo e na maioria dos casos é o que se dá.

A permanente hostilidade e a sua reação,são provas de que a relação com o mundo ou não se dá ou se distorce,mas se distorce porque não se dá e isto ocorre porque a subjetividade se defende constantemente do perigo(às vezes imaginário) que ele representa.

Assim como na sexualidade infantil o sexo abusivo se mostra não raro no plano da imaginação,como saudade ou tentativa de retorno ao paraíso perdido,o perigo é algo igualmente irreal e sim imaginado.Imaginação que facilita a construção de uma identidade inconformada com a perda.

No fundo ,uma revolta se instala ,criando uma personalidade instável(porque não vai ao futuro e não tem como voltar ao passado) ,que só se equilibra e se integra na imaginação.

Diversas narrativas e ideias contribuem para isto e toda limitação do mundo ataca esta autro-estima imaginativa,porque banaliza a vida,torna-a igual a tudo,o que esta personalidade não aceita.

O trauma mal resolvido na e da infância cobra um preço infinito quanto às compensações que a imaginação tenta criar e toda limitação causa horror porque as impede.

Contudo este percurso não é o mesmo para todos.Há nele uma busca de resolução do conflito interno,da luta por uma estabilidade emocional,que no destrutivo se dá pela..destruição.

A destruição(dos judeus)pura e simples é auto-destruição,mas quando ele se alia a um propósito factível, existe para esta personalidade sem trava,um nó górdio diluível.Se posteriormente esta autodestruição permanece é um problema histórico complexo,futurológico e especularivo,mas do ponto de vista pessoal não há como não deslindar a figura de Adolf Hitler da consequencia dos seus atos,o que é parte do sadismo moral de todo destrutivo,a sua falta de empatia.

Isto significa que há uma distinção entre o psicopta comum,este seria killer incaapz de se conter e o politico,pelo menos por hipótese.O problema é posto por Dostoievski em “ Crime e Castigo”,mutatis mutandi:Napoleão é um criminoso tão ou mais letal do que muitos homicidas,mas é aceito e encar tudo normalmente enquanto que um homicida comum é carregadod e culpa.O ponto nodal aqui é o auto-controle daquele que comete crime.Assunto para os outrso artigos sobre Hitler.

Nós podemos fazer uma analogia com Dom Quixote:a loucura de Dom Quixote numa de suas primeiras aventuras ao tentar libertar criminosos,tem como ser questionada ,por isto mesmo,mas a sua mensagem de liberdade absoluta,se valida por sua loucura.

Mas em Hitler não se trata de loucura,mas de psicopatia,disturbio de personalidade e de caráter,falta de empatia com o outro,ausência de norma,de limite. Mesmo na loucura há sentido,noção de limite,critério,mas na relação distorcida,não,na psicopatia não ou pelo menos o critério se submete à transgressão.

O terceiro ponto prévio trato no próximo artigo.


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